quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Made in China II: Viva a Globalização

Faz muito calor em Los Angeles. Mary Lee tira da bolsa Gucci um vistoso leque vermelho com dourado e suspira ruidosamente, pretendendo parecer despretensiosa, mas definitivamente chamando a atenção do grande grupo de amigas que fofocava na piscina do exclusivo clube high-society local.

- Hmmm.. que luxo, Mary Lee, onde você comprou esse badulaque?, perguntou Anna apontando o pitoresco objeto que reluzia ao sol de 40 graus.
- Hmm?, ponderou fazendo-se de desentendida. Ah, é um artesanato super exclusivo que comprei quando fui a um resort na selva amazônica!

A conversa então chama a atenção de outra colega, Jeanie, que acrescenta em tom desafiador.

- Ora, Mary Lee, eu tenho um leque i-dên-ti-co que eu comprei em Zanzibar no ano passado, veja só!, afirma enquanto tira da bolsa Louis-Vitton-último-modelo um leque gêmeo do primeiro.

Antes que Mary Lee pudesse se defender da sugestão maldosa da "amiga", uma terceira madame, mais nova, solta do cabelo um terceiro leque para verificar a terceira coincidência.

- ...mas o meu eu comprei no mercado flutuante de Bangkok!!!, acrescenta, pra aumentar a confusão.
- Como é possível?, questiona inconformada Mary Lee, contribuindo para a polêmica.

Que nem fogo no cerrado, a história ganhou proporções e atraiu o resto das californianas que se bronzeavam ao redor da piscina. Em questão de minutos foram desembainhados quatro outros leques que não tinham a menor diferença entre si, salvo pelos lugares exóticos em que haviam sido adquiridos pelas respectivas proprietárias: México, Ilhas Gregas, Jamaica e Nova Zelândia, com isso completando, por acaso, os sete continentes.

A viajada mulherada examinava freneticamente os objetos causadores da polêmica para descobrir de onde vinham de fato. Foi então que a dona do leque (supostamente) grego encontrou um discreto escrito oriental na parte inferior do cabo que só era possível ver com o leque plenamente aberto. Após uns bons dez minutos de fervorosa especulação, o texto foi classificado consensualmente como japonês. Foi então que uma das mulheres que não tinha leque mas se meteu no imbrólio por esporte lembrou, entusiasmada:

- Gente, por que não perguntamos para a Kim, a cozinheira japonesa?

Kim era a competente cozinheira do restaurante que ficava à beira da piscina e foi prontamente notificada da solicitação. Não foi problema deixar a cozinha só, já que todas as clientes estavam ocupadas com o mistério do leque oriental e esqueceram de comer e beber.

- Kim, por favor, você pode nos ajudar a esclarecer de onde vem este maldito leque?, tomou a dianteira, aflita, Mary Lee, perdendo totalmente a pose. Toda a esperança das madames curiosas restava diante dos olhos puxados da cozinheira.

Por um breve instante a cozinheira olhou o leque. Em seguida olhou para a tropa de madames descompostas pela curiosidade, aguardou o silêncio completo com paciência oriental e sem mais delongas declarou o veredito:

- Made in China.

- Eu sabia que essas letrinhas eram japonês! Ideograma, sabe?, exclamou cheia de autoridade mas sem pensar muito a dona do leque asiático, posando de culta, para em seguida tentar remendar: "Mas... Kim, se o leque é chinês, por que está escrito 'Made in China' em japonês, como você acabou de traduzir??

Kim respirou fundo - na verdade suspirou fundo - com certa resignação e solucionou:

- Olha: Eu sou coreana, não falo japonês, mas comprei um leque igualzinho ainda ontem a dez quadras daqui em Chinatown. É aquele de 2 dólares, não é?

2 comentários:

Anónimo disse...

VIVA a nossa 25 de março!!!!! rsrs
Beijos,
Paula Bartolomei

Anónimo disse...

Incroyable... tristement incroyable! Que bestia!
Tía Elena