terça-feira, 3 de junho de 2008
Viajar Também é Ficar Parado
Quando viajamos é natural o espírito inquieto tomar conta do corpo e a gente logo se vê sinonimando conhecer com percorrer.
Ali na Praça do Comércio, no entanto, sem mexer mais que os olhos - por vezes inclusive fechando-os para ouvir melhor a cornucópia de sons de um centro urbano - a cidade passa à minha volta como um documentário: o ocupado passando apressado como bom biznezman de banco ou qual outro disfarce pro estresse; o bonde chacoalhando velhinhos que já não dão mais para o sobe e desce da cidade das sete colinas; um estranho par de garis de boina que presumo ser o auge da elegância lusa ou apenas uma performance de artistas de rua; e do outro lado da rua outro par, desta vez de turistas brasileiras, tirando fotos, fazendo caretas e falando besteira, coisa que imediatamente me faz concluir "merda... como somos ridículos os turistas".
O fato é que, quando a gente pára, o resto das gentes pode dizer muita coisa. É uma maneira pacata de perceber a dinâmica de cidades que, quer você pare ou não, não param.
Deixando o corpo descansar, a cabeça segue viagem só, adivinhando aonde vai cada que passa, brincando com a memória acumulada, criando metáforas para dar conta de cada novidade percebida, metabolizando histórias pra exagerar aos amigos no bar ou aos netos na sobremesa.
Pois, viajar, também é ficar parado.
Viajar Também é Não Conhecer Nada
Sempre falei mal de Resort. Acho, no entanto, que não compreendia muito bem a amplitude da doença encapsulada neste fenômeno nem tão recente do turismo de consumo.
Todo mundo que vai a um dos tais resorts justifica-se dizendo que 'não quer fazer nada', tem que 'descansar', aproveitar as férias para 'carregar as pilhas' e/ou alega faltar tempo para fazer uma viagem mais elaborada, longa ou livre. Alguém já parou para pensar o quanto isso é estranho?? Quer dizer: justamente o precioso tempo que o cara pode dispôr da maneira que bem entender - suas férias - ele toma para justamente preparar-se para voltar a um cotidiano fastidiante que o esgota de forma que justamente o momento que pode fazer o que quer - suas férias - ele precisa dedicar a 'não fazer nada', 'carregar as pilhas' e otras cositas más.
O cotidiano - trabalho, trânsito, questões familiares, balada, time de futebol - não pode sugar as energias de forma que não sobre energia produtiva ou criativa para nosso tempo livre. Afinal, esse tempo livre é ou não é o nosso tempo mais nobre?
E lá vai o turistão comprar um dos famosos pacotes em lugares vendidos como paradisíacos mas que, em realidade, pouco importam, pois o que realmente importa é que, em todos eles, haverá um exclusivo resort com um exclusivo SPA ao lado do exclusivo campo de golfe. Para restaurar o apetite destreinado de fast-food de almoços de cinco minutos, cinco restaurantes - um obrigatoriamente tem que ser japonês ou tailandês - com menus exclusivos. E, para completar, um quarto exclusivo com varanda, ar-condicionado e TV a cabo, mais um monte de garcom para servir o cansadão, uma piscina com alguma forma original, igualmente exclusiva, para quem tem preguiça de caminhar 13 metros até a praia exclusiva - que, até 5 anos atrás, era uma nada exclusiva vila de pescadores, que agora trabalham na limpeza do... er.. como é que fala mesmo, seu moço? "Rizorte"?
Então o turistão sai do cotidiano para viver o mesmo cotidiano sem surpresas, em ambiente controlado, apenas com uma nova praia ou um alpe suiço como cenário. Evidentemente o staff exclusivo irá preparar exclusivas exibições de shows étnicos de dança, música, exposições de arte, ou esportes náuticos, jantares e passeio de carroça ou dromedário para que o turistão experimente algo da tal da 'cultura local', tire suas fotos de praxe e volte achando que conheceu alguma coisa nova.
Conheceu nada. Experimentou.
Esta é uma diferença fundamental. É, talvez, a mesma diferença entre passear na floresta amazônica ou no Jardim Botânico; testemunhar um tigre caçando de cima do elefante ou passear no zoológico; ir ao aquário municipal de Bangkok ou mergulhar em Richelieu Rock.
Como diz-se do profeta, o turista tem que se perguntar se é daqueles que vai até a montanha ou prefere a montanha que vem até si. Uma coisa é certa: são montanhas diferentes.
Bélgica: Terra das Loiras
Mas não podemos perder a esperança: um país sempre tem algo que vale a pena, além do amigo Rittes que motiva a visita.
No primeiro passeio pelo centro de Bruxelas, percebi alguma coisa especial nas loiras que abundavam pela calçada. Era um loiro particular, não era aquele quase-branco escandinavo, nem o loiro aguado alemão, menos ainda o desbotado de baile funk carioca ou etapa do brasileiro de surfe em Itamambuca. Não sei se eu é que fiz uma síntese imaginária dos vizinhos, mas a minha impressão foi de um loiro com a coloração holandesa, o charme francês, a estatura alemã e o rosto comportado, suíço.
É uma espécie de loira endêmica da Bélgica, muito particular, em especial as que falam o raspado idioma flamengo. Mas talvez seja justamente esta mistura particular de sabores que inspirou os frades belgas e seus sucessores na arte de fabricar uma outra loira artificial que não a Carla Perez: a cerveja belga.
A multiplicidade de sabores, processos, fórmulas, origens, marcas e abades por trás de cada rótulo compõe o caleidoscópio de garrafas nas muitas licorerias da cidade e faz a alegria do visitante que aprecia o tour etílico pela terra das loiras. Das loiras frias e das geladas.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Cinganadapura
Pode ser que, alcançando a ponta da península do sudeste asiático, buscássemos a sensação de tarefa cumprida e hora de voltar para casa. Ou talvez a curiosidade de perceber com os sentidos um pouco do que é este tal “fenômeno” do mundo dos negócios globalizado: uma cidade-país-ilha que saiu do anonimato para as manchetes do Wall Street Journal em 40 anos e todo mundo agora quer tirar uma casquinha.
Em nosso caso a casquinha foi apenas de um par de dias caminhando tranquilamente pela metrópole famosa pela disciplina: altíssimas multas e excessivas proibições, a mais notória, divertida e, na minha modesta opinião, acertadíssima, mascar chiclete. Fosse o que fosse, ainda que fosse apenas um par de dias para pegar um avião e passear na roda-gigante gigante, valeu muito a pena.
Não que eu tenha gostado do que vi, mas gostei de ter visto. Acho que não é a primeira vez que digo isso, não?
Andando pelas grandes avenidas de Cingapura a primeira impressão foi de andar por uma espécie de cidade fantasma. Só que sabíamos que a cidade era habitada – 4º país mais denso do mundo, só que o país é uma cidade-estado – e os carros e ônibus denunciavam o frenesi da metrópole. No entanto, gente que é bom, pedestre comum, engravatado, madame com pequinês, grupos de estudantes de franjinha, ipod e roupas coloridas de plástico, onde estava esse povo?
Lembrei então que acostumei a esquecer o dia da semana. Olhei em meu relógio Adidas indiano de 2 dólares e vi que não era domingo. Pensei e não consegui formular nenhuma outra hipótese mirabolante, de forma que nos conformamos e continuamos nossa caminhada. Eu sabia que essa gente misturada de chinês com malaio com indiano com branquelos ocidentais engravatados estaria em algum lugar, mas não imaginei que, com o céu azul e clima agradável que fazia, estariam todos enfurnados embaixo da terra.
No fim do dia, decidimos voltar de metrô, ao que fomos obrigados a atravessar um shopping center, único meio de acessar o transporte , er... coletivo (?). Entrar no shopping de Cingapura após nove meses sem saber o que é um shopping, foi, para mim, tão surreal quanto deve ser para um alemão entrar no Ó do Borogodó de domingo: burburinho geral, música alta, gente, muita gente. Mais especificamente gente com compras, muitas sacolas de compras. Então inaugurei um novo jogo: contabilizar a porcentagem de pessoas saindo do shopping com e sem sacolas de compras na mão. Mas o jogo logo perdeu a graça, já que não havia ninguém sem sacolas.
Então percebemos, em primeiro lugar, como tem shopping nesse lugar. Deve superar o número de padarias, restaurantes japoneses e pet-shops de Sampa, tudojunto. E percebemos como o povo compra.
Sinto que Cingapura é um retrato da Ásia que perdeu a inocência: os valores familiares, o budismo, os costumes chineses de 4 mil anos, o Confúncio, o Tao Te King, vai tudo pro museu. Em troca são os intermináveis shoppings de eletro-eletrônicos, computadores, comida, roupas; a música internacional que impera na forma de jazz pros chineses comportados e de eletrônica para as novas gerações; a comida é de qualquer origem que não de Cingapura – indiana, malaia, indonésica, chinesa, tailandesa, marroquina, japonesa, alemã e, por que não, brasileira. E o esporte preferido, já adivinharam? Sair de compras, se chama.
É incrível o tipo de sacrifício que uma sociedade pode fazer para entrar no seleto mundo dos “civilizados”. Às vezes me parece que o mundo é igual a uma escola secundária onde alunos sacrificam seus valores para poder “pertencer” ao grupo dos playboys ou dos jogadores de futebol, enfim, dos chamados “populares”. A insegurança individual do adolescente parece que contagia nações que não têm maturidade cultural, identidade política e estado soberano.
Então os cingapurianos optaram por uma sociedade estrita e regulada, disciplina acima de tudo para progredir. Hoje o povo ganha, em média, mais que o português e três vezes mais que o brasileiro e paga 4 dólares por uma cerveja 0,5 litro. Mas que importa tudo isso, se legal mesmo é ter o último modelo de iphone...
domingo, 25 de maio de 2008
Singapur, llegando al fin
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Véia Lôca
O resultado foi uma sociedade chamada Primo com o primo e cujo primeiro trabalho – produção independente – foi uma animação para o Festival do Minuto. “Véia Lôca” foi como o Guto carinhosamente batizou a senil protagonista que tentava, dentro de suas evidentes limitações físicas, atravessar uma rua que, à medida em que ela avançava, parecia crescer mais e mais, enquanto os carros que esperavam a luz verde enfureciam, retorcendo os faróis e rugindo, prontos para prosseguir com a correria urbana, mesmo que por cima da véia.
Lembrei desta história, por acaso, em Cingapura, uma cidade que poderia perfeitamente ter servido de cenário para a epopéia de um minuto da Véia Lôca: frenética, business-like, repleta de shopping centers e restaurantes, Cingapura é uma metrópole em que tudo funciona na base da regra – quase igual à Índia. Rapidamente fica claro: quem fugir à regra será punido. Mas por punição não me refiro apenas às famosas multas milionárias. Existem outras sutilezas que as metrópoles da eficiência como Cingapura e São Paulo não permitem e fazem questão de expurgar.
Estava passeando com a Maca em uma das grandes e largas avenidas quando vimos o semáforo de pedestres anunciar: vou fechar. Na primeira piscada do homenzinho vermelho, avistei nada mais nada menos que.... ELA!! A Véia Lôca!!!
A velhinha, como se ignorante do que se passava em volta, avançava lentamente pela segunda de cinco pistas quando os carros já rugiam. Não precisou muito para que eu visse, imediatamente transposto da tela à realidade, a animação que fizemos: os carros franzindo as sombrancelhas, os motoristas impacientes com a primeira marcha engatada, paulatinamente escorregando o pé da embreagem, com a cabeça sei lá em que lugar e em que reunião para a qual estavam todos certamente atrasados.
Mas a velhinha não tinha como acelerar.
Vendo o hiato da situação, na segunda piscada do homenzinho vermelho, fui de encontro à velhinha, mesmo consciente de que seguramente há uma caríssima multa por cruzar no farol vermelho para pedestres, para assegurar que ela não tivesse o mesmo cruel destino que Guto e eu demos à heroína do Festival do Minuto – ou melhor, ficou aberto à interpretação, mas tinha sangue no meio...
Acompanhei a velhinha, como que pedindo desculpas aos motoristas ou sei lá o quê, mas ao menos chamando a atenção deles para aquele bichinho indefeso que cruzava agora a terceira de cinco pistas.
Lá pela quarta pista, sem saber muito qual seria sua reação, tomei sua mão, para que se sentisse segura, como quem diz: “Não se preocupe, Véia Lôca, eu já te conheço de outras travessias!”.
Enquanto suspirava aliviado na quinta e última pista, notei que o motorista da furgoneta que aí aguardava gesticulava com reprovação e eu tentava, com um mesmo olhar, explicar a situação e perguntar ironicamente se ele queria que eu a levasse no colo, porra.
Só quando chegamos em terra firme foi que percebi um chinês – agora podia notar que a velhinha era igualmente chinesa – caminhando decidido em minha direção com a mão estendida. Vai me algemar, pensei. Se não por atravessar no farol vermelho, então por dar a mão à uma senhora de respeito sem autorização ou, por último, por ofender o motorista da furgoneta com um olhar irônico. Sei lá se ironia também é proibido em Cingapura.
Mas a mão estendida apertou fortemente minha mão e disse com um inglês humilde: “Você está construindo seu caminho para o céu”. Pegou as sacolas que o tinham ocupado, tomou a mãe pelo braço e seguiu seu rumo.
Ah, para aqueles que conhecem e curtem animação e design, a Primo tá de site novo!
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Domingo
O viajante independente desenvolve, com o tempo, uma série de hábitos que não necessariamente cabem na rotina de trabalho convencional. Quando menos espera, percebe uma deliciosa tendência a acordar sem despertador, a comer só quando tem fome, a odiar taxista, a dormir em ônibus apertado, a vestir as mesmas roupas por muitos dias (ou meses), a falar swahili ou alemão com muita mímica, a acessar a internet diariamente pra ver se o corinthians ganhou alguma coisa, a escrever para um blogue num mini-teclado, a cagar no matinho quando o ônibus para no trânsito, a acordar às 4 pra pegar o vôo mais barato, a ficar 6 dias sem banho para subir o kilimanjaro, a lavar cueca na pia e vestir a cueca úmida porque ainda não secou, a comer em barraquinha de rua, a tomar o chá oferecido pelo tibetano, a vomitar o chá oferecido pelo indiano, a não ser oferecido nada pelo chinês carrancudo.
A gente também confunde algumas coisas como a senha do Facebook com a do Orkut, o CEP da casa da afilhada e da vó pra mandar postal, o dia da república e o dia da independência do Brasil.
A gente também rapidamente esquece algumas coisas - até parece que de propósito - como trânsito de São Paulo, o telefone do ombudsman da Telefonica, jiló e, principalmente, o dia da semana em que está.
Esquecer o dia da semana, à primeira vista, não tem graaaande importância numa viagem: se for uma praia perto de um centro urbano, estará cheia no fim de semana; se você planeja passear no museu, segunda é um dia que arrisca de estar fechado; se você procura balada na Zâmbia, terça pode não ser o seu dia. Mas nada muito mais relevante que estas pequenas desventuras. Por isso, depois de mês e pouco, abandonei completamente a noção de semana.
No entanto, passados alguns meses mais, percebemos que a ausência de rotina semanal significava um erro fatal, até mesmo para quem está viajando por longo prazo sem compromisso nem agenda fechada: não tem domingo.
Aos desavisados que ainda sonham que viajar por meses de mochilão é igual ir de férias no resort ou passar a semana na casa de praia da tia, uma dica de amigo: não é a mesma coisa; viajar longamente cansa.
O deslocamento é fatigante; o processo de absorção dos estímulos é intenso; aprender idiomas, tomar decisões - grandes e pequenas -, comer na rua e lavar cueca na pia (para depois vestir molhada, já disse)... O fato é que de quando em quando a mochila pesa mais.
Foi então que resolvi declarar: "Hoje é Domingo" - e sim, na minha declaração é domingo com maiúscula.
Durante a viagem começamos a entender que não é obrigação todo dia estar explorando, consumindo, aproveitando, conhecendo, aprendendo, se mexendo. É fundamental parar para digerir. Não fazer nada. E por mais que todo mundo te previna, os primeiros meses são fatais: a gente se destrói.
Com o tempo começamos a observar o ritmo, buscar atividades que não sejam de pura “viajisse” – ou seja, que lembrem o dia a dia – tais como cozinhar, ver um jogo de futebol na tevê, sei lá, quem sabe até bancar um hotelzinho só pra tomar um longo banho de banheira.
Domingo para quem tá na rotina, muitas vezes parece tédio. Mas, do lado de cá, em movimento, aprendi a respeitar esse dia sagrado de almoço de família, cinema e pizza. Ou de não fazer nada. Absolutamente nada.