terça-feira, 3 de junho de 2008
Viajar Também é Ficar Parado
Quando viajamos é natural o espírito inquieto tomar conta do corpo e a gente logo se vê sinonimando conhecer com percorrer.
Ali na Praça do Comércio, no entanto, sem mexer mais que os olhos - por vezes inclusive fechando-os para ouvir melhor a cornucópia de sons de um centro urbano - a cidade passa à minha volta como um documentário: o ocupado passando apressado como bom biznezman de banco ou qual outro disfarce pro estresse; o bonde chacoalhando velhinhos que já não dão mais para o sobe e desce da cidade das sete colinas; um estranho par de garis de boina que presumo ser o auge da elegância lusa ou apenas uma performance de artistas de rua; e do outro lado da rua outro par, desta vez de turistas brasileiras, tirando fotos, fazendo caretas e falando besteira, coisa que imediatamente me faz concluir "merda... como somos ridículos os turistas".
O fato é que, quando a gente pára, o resto das gentes pode dizer muita coisa. É uma maneira pacata de perceber a dinâmica de cidades que, quer você pare ou não, não param.
Deixando o corpo descansar, a cabeça segue viagem só, adivinhando aonde vai cada que passa, brincando com a memória acumulada, criando metáforas para dar conta de cada novidade percebida, metabolizando histórias pra exagerar aos amigos no bar ou aos netos na sobremesa.
Pois, viajar, também é ficar parado.
Viajar Também é Não Conhecer Nada
Sempre falei mal de Resort. Acho, no entanto, que não compreendia muito bem a amplitude da doença encapsulada neste fenômeno nem tão recente do turismo de consumo.
Todo mundo que vai a um dos tais resorts justifica-se dizendo que 'não quer fazer nada', tem que 'descansar', aproveitar as férias para 'carregar as pilhas' e/ou alega faltar tempo para fazer uma viagem mais elaborada, longa ou livre. Alguém já parou para pensar o quanto isso é estranho?? Quer dizer: justamente o precioso tempo que o cara pode dispôr da maneira que bem entender - suas férias - ele toma para justamente preparar-se para voltar a um cotidiano fastidiante que o esgota de forma que justamente o momento que pode fazer o que quer - suas férias - ele precisa dedicar a 'não fazer nada', 'carregar as pilhas' e otras cositas más.
O cotidiano - trabalho, trânsito, questões familiares, balada, time de futebol - não pode sugar as energias de forma que não sobre energia produtiva ou criativa para nosso tempo livre. Afinal, esse tempo livre é ou não é o nosso tempo mais nobre?
E lá vai o turistão comprar um dos famosos pacotes em lugares vendidos como paradisíacos mas que, em realidade, pouco importam, pois o que realmente importa é que, em todos eles, haverá um exclusivo resort com um exclusivo SPA ao lado do exclusivo campo de golfe. Para restaurar o apetite destreinado de fast-food de almoços de cinco minutos, cinco restaurantes - um obrigatoriamente tem que ser japonês ou tailandês - com menus exclusivos. E, para completar, um quarto exclusivo com varanda, ar-condicionado e TV a cabo, mais um monte de garcom para servir o cansadão, uma piscina com alguma forma original, igualmente exclusiva, para quem tem preguiça de caminhar 13 metros até a praia exclusiva - que, até 5 anos atrás, era uma nada exclusiva vila de pescadores, que agora trabalham na limpeza do... er.. como é que fala mesmo, seu moço? "Rizorte"?
Então o turistão sai do cotidiano para viver o mesmo cotidiano sem surpresas, em ambiente controlado, apenas com uma nova praia ou um alpe suiço como cenário. Evidentemente o staff exclusivo irá preparar exclusivas exibições de shows étnicos de dança, música, exposições de arte, ou esportes náuticos, jantares e passeio de carroça ou dromedário para que o turistão experimente algo da tal da 'cultura local', tire suas fotos de praxe e volte achando que conheceu alguma coisa nova.
Conheceu nada. Experimentou.
Esta é uma diferença fundamental. É, talvez, a mesma diferença entre passear na floresta amazônica ou no Jardim Botânico; testemunhar um tigre caçando de cima do elefante ou passear no zoológico; ir ao aquário municipal de Bangkok ou mergulhar em Richelieu Rock.
Como diz-se do profeta, o turista tem que se perguntar se é daqueles que vai até a montanha ou prefere a montanha que vem até si. Uma coisa é certa: são montanhas diferentes.
Bélgica: Terra das Loiras
Mas não podemos perder a esperança: um país sempre tem algo que vale a pena, além do amigo Rittes que motiva a visita.
No primeiro passeio pelo centro de Bruxelas, percebi alguma coisa especial nas loiras que abundavam pela calçada. Era um loiro particular, não era aquele quase-branco escandinavo, nem o loiro aguado alemão, menos ainda o desbotado de baile funk carioca ou etapa do brasileiro de surfe em Itamambuca. Não sei se eu é que fiz uma síntese imaginária dos vizinhos, mas a minha impressão foi de um loiro com a coloração holandesa, o charme francês, a estatura alemã e o rosto comportado, suíço.
É uma espécie de loira endêmica da Bélgica, muito particular, em especial as que falam o raspado idioma flamengo. Mas talvez seja justamente esta mistura particular de sabores que inspirou os frades belgas e seus sucessores na arte de fabricar uma outra loira artificial que não a Carla Perez: a cerveja belga.
A multiplicidade de sabores, processos, fórmulas, origens, marcas e abades por trás de cada rótulo compõe o caleidoscópio de garrafas nas muitas licorerias da cidade e faz a alegria do visitante que aprecia o tour etílico pela terra das loiras. Das loiras frias e das geladas.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Cinganadapura
Pode ser que, alcançando a ponta da península do sudeste asiático, buscássemos a sensação de tarefa cumprida e hora de voltar para casa. Ou talvez a curiosidade de perceber com os sentidos um pouco do que é este tal “fenômeno” do mundo dos negócios globalizado: uma cidade-país-ilha que saiu do anonimato para as manchetes do Wall Street Journal em 40 anos e todo mundo agora quer tirar uma casquinha.
Em nosso caso a casquinha foi apenas de um par de dias caminhando tranquilamente pela metrópole famosa pela disciplina: altíssimas multas e excessivas proibições, a mais notória, divertida e, na minha modesta opinião, acertadíssima, mascar chiclete. Fosse o que fosse, ainda que fosse apenas um par de dias para pegar um avião e passear na roda-gigante gigante, valeu muito a pena.
Não que eu tenha gostado do que vi, mas gostei de ter visto. Acho que não é a primeira vez que digo isso, não?
Andando pelas grandes avenidas de Cingapura a primeira impressão foi de andar por uma espécie de cidade fantasma. Só que sabíamos que a cidade era habitada – 4º país mais denso do mundo, só que o país é uma cidade-estado – e os carros e ônibus denunciavam o frenesi da metrópole. No entanto, gente que é bom, pedestre comum, engravatado, madame com pequinês, grupos de estudantes de franjinha, ipod e roupas coloridas de plástico, onde estava esse povo?
Lembrei então que acostumei a esquecer o dia da semana. Olhei em meu relógio Adidas indiano de 2 dólares e vi que não era domingo. Pensei e não consegui formular nenhuma outra hipótese mirabolante, de forma que nos conformamos e continuamos nossa caminhada. Eu sabia que essa gente misturada de chinês com malaio com indiano com branquelos ocidentais engravatados estaria em algum lugar, mas não imaginei que, com o céu azul e clima agradável que fazia, estariam todos enfurnados embaixo da terra.
No fim do dia, decidimos voltar de metrô, ao que fomos obrigados a atravessar um shopping center, único meio de acessar o transporte , er... coletivo (?). Entrar no shopping de Cingapura após nove meses sem saber o que é um shopping, foi, para mim, tão surreal quanto deve ser para um alemão entrar no Ó do Borogodó de domingo: burburinho geral, música alta, gente, muita gente. Mais especificamente gente com compras, muitas sacolas de compras. Então inaugurei um novo jogo: contabilizar a porcentagem de pessoas saindo do shopping com e sem sacolas de compras na mão. Mas o jogo logo perdeu a graça, já que não havia ninguém sem sacolas.
Então percebemos, em primeiro lugar, como tem shopping nesse lugar. Deve superar o número de padarias, restaurantes japoneses e pet-shops de Sampa, tudojunto. E percebemos como o povo compra.
Sinto que Cingapura é um retrato da Ásia que perdeu a inocência: os valores familiares, o budismo, os costumes chineses de 4 mil anos, o Confúncio, o Tao Te King, vai tudo pro museu. Em troca são os intermináveis shoppings de eletro-eletrônicos, computadores, comida, roupas; a música internacional que impera na forma de jazz pros chineses comportados e de eletrônica para as novas gerações; a comida é de qualquer origem que não de Cingapura – indiana, malaia, indonésica, chinesa, tailandesa, marroquina, japonesa, alemã e, por que não, brasileira. E o esporte preferido, já adivinharam? Sair de compras, se chama.
É incrível o tipo de sacrifício que uma sociedade pode fazer para entrar no seleto mundo dos “civilizados”. Às vezes me parece que o mundo é igual a uma escola secundária onde alunos sacrificam seus valores para poder “pertencer” ao grupo dos playboys ou dos jogadores de futebol, enfim, dos chamados “populares”. A insegurança individual do adolescente parece que contagia nações que não têm maturidade cultural, identidade política e estado soberano.
Então os cingapurianos optaram por uma sociedade estrita e regulada, disciplina acima de tudo para progredir. Hoje o povo ganha, em média, mais que o português e três vezes mais que o brasileiro e paga 4 dólares por uma cerveja 0,5 litro. Mas que importa tudo isso, se legal mesmo é ter o último modelo de iphone...
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Véia Lôca
O resultado foi uma sociedade chamada Primo com o primo e cujo primeiro trabalho – produção independente – foi uma animação para o Festival do Minuto. “Véia Lôca” foi como o Guto carinhosamente batizou a senil protagonista que tentava, dentro de suas evidentes limitações físicas, atravessar uma rua que, à medida em que ela avançava, parecia crescer mais e mais, enquanto os carros que esperavam a luz verde enfureciam, retorcendo os faróis e rugindo, prontos para prosseguir com a correria urbana, mesmo que por cima da véia.
Lembrei desta história, por acaso, em Cingapura, uma cidade que poderia perfeitamente ter servido de cenário para a epopéia de um minuto da Véia Lôca: frenética, business-like, repleta de shopping centers e restaurantes, Cingapura é uma metrópole em que tudo funciona na base da regra – quase igual à Índia. Rapidamente fica claro: quem fugir à regra será punido. Mas por punição não me refiro apenas às famosas multas milionárias. Existem outras sutilezas que as metrópoles da eficiência como Cingapura e São Paulo não permitem e fazem questão de expurgar.
Estava passeando com a Maca em uma das grandes e largas avenidas quando vimos o semáforo de pedestres anunciar: vou fechar. Na primeira piscada do homenzinho vermelho, avistei nada mais nada menos que.... ELA!! A Véia Lôca!!!
A velhinha, como se ignorante do que se passava em volta, avançava lentamente pela segunda de cinco pistas quando os carros já rugiam. Não precisou muito para que eu visse, imediatamente transposto da tela à realidade, a animação que fizemos: os carros franzindo as sombrancelhas, os motoristas impacientes com a primeira marcha engatada, paulatinamente escorregando o pé da embreagem, com a cabeça sei lá em que lugar e em que reunião para a qual estavam todos certamente atrasados.
Mas a velhinha não tinha como acelerar.
Vendo o hiato da situação, na segunda piscada do homenzinho vermelho, fui de encontro à velhinha, mesmo consciente de que seguramente há uma caríssima multa por cruzar no farol vermelho para pedestres, para assegurar que ela não tivesse o mesmo cruel destino que Guto e eu demos à heroína do Festival do Minuto – ou melhor, ficou aberto à interpretação, mas tinha sangue no meio...
Acompanhei a velhinha, como que pedindo desculpas aos motoristas ou sei lá o quê, mas ao menos chamando a atenção deles para aquele bichinho indefeso que cruzava agora a terceira de cinco pistas.
Lá pela quarta pista, sem saber muito qual seria sua reação, tomei sua mão, para que se sentisse segura, como quem diz: “Não se preocupe, Véia Lôca, eu já te conheço de outras travessias!”.
Enquanto suspirava aliviado na quinta e última pista, notei que o motorista da furgoneta que aí aguardava gesticulava com reprovação e eu tentava, com um mesmo olhar, explicar a situação e perguntar ironicamente se ele queria que eu a levasse no colo, porra.
Só quando chegamos em terra firme foi que percebi um chinês – agora podia notar que a velhinha era igualmente chinesa – caminhando decidido em minha direção com a mão estendida. Vai me algemar, pensei. Se não por atravessar no farol vermelho, então por dar a mão à uma senhora de respeito sem autorização ou, por último, por ofender o motorista da furgoneta com um olhar irônico. Sei lá se ironia também é proibido em Cingapura.
Mas a mão estendida apertou fortemente minha mão e disse com um inglês humilde: “Você está construindo seu caminho para o céu”. Pegou as sacolas que o tinham ocupado, tomou a mãe pelo braço e seguiu seu rumo.
Ah, para aqueles que conhecem e curtem animação e design, a Primo tá de site novo!
sábado, 10 de maio de 2008
Seven Eleven
A Tailândia de Greg e a minha diferenciam-se não exatamente nem apenas pela distância, pelo poder aquisitivo do caipira estadunidense ou pelo fato de milhares de vôos conectarem diretamente os EUA com a Tailândia. A diferença fundamental é mais embaixo: a pop-star do sudeste asiático guarda um contraste profundo que reside, segundo minha mais nova teoria da conspiração, em seu histórico alinhamento com as potências do ocidente - notoriamente EUA. Este alinhamento, além de transformar a Tailândia em base de operações para os conflitos do sudeste asiático - destaca-se, obviamente o conflito do Vietnã que afetou toda a região -, aproximou as relações do país com o "American Way of Life" e abriu as portas ao resto do ocidente desde há muito, fato consumado no PIB atual do país: com tsunami e tudo, a receita número um é o turismo.
Foi assim que, bem antes dos vietnamitas descobrirem a Coke Zero, da menina cantar Like a Virgin no karaokê no Camboja ou da dona da pousada no Laos viciar em videogame, os thais já aprendiam inglês instrumental, inventavam shows de ping-pong e promoviam lutas de mwai thai (boxe tailandês) entre lutadores reais ou travestis e se prostituíam no ritmo da demanda, fazendo da Tailândia um belo parque de recreações para o solitário e deslumbrado estadunidense.
Melhor ainda: para a conveniência de Greg, empresários rapidamente popularam as grandes cidades e hubs turísticos com uma ampla rede da franquia estadunidense 7/11 ("Seven-Eleven"). Assim, este país de natureza exuberante, agradável clima tropical (quando não tem monções nem tsunami) e praias quase no nível de Morro de São Paulo, exibe, após algumas décadas de globalização precoce, uma cadeia de 7/11's que deixa o onipresente Mc Donald's paulistano no chinelo.
Então, a cultura tailandesa, sumamente budista, eminentemente conservadora, profundamente familiar, aparentemente xenófoba (isso é tema para mais uma crônica especulativa...), invadida por hordas de turistas ocidentais, em grande parte jovens baderneiros, é transformada invariavelmente.
Felizmente esta cultura tailandesa é uma cultura forte. E reage.
Nos destinos frequentes dos anglo-branquelos - e, recentemente, também dos asiáticos endinheirados, isto é, em maioria chineses, japoneses e sul-coreanos - a influência cultural é uma evidente via de duas mãos em que circulam visitante e visitado: alemães com tatuagens tradicionais tailandesas, americanos com tailandesas (e muito pouco vice-versa), o previsível rock thai competindo com o uníssono Eagles - hit dos bares de expatriados e turistas -, monges ocidentais em templos nas montanhas do norte, cursos de meditação, de thai, de cozinha thai, de massagem thai, de mwai-thai, de tai-chi etcetera. Não obstante, em cada esquina, uma conveniente lojinha verde, vermelha e laranja.
Mas nem só para furtar uns mililitros de ar-condicionado e tomar yakult na madrugada serve o 7/11 tailandês.
Seven-eleven: o simpático nome da loja, além de rimar, no inglês, dois números primos (coisa que evidentemente me agrada), me chama a atenção por simbolizar este contraste que vigora nas ruas de Bangkok, nos templos de Chiang Mai, nas montanhas de Pai, nas ilhas do Leste, no Parque Nacional Marítimo do Oeste, nos dive spots do sul. Primeiro tem o seven (7), o cabalístico número que quantifica os pecados capitais, as maravilhas do mundo, a redondilha menor, os dias da semana e o número de filhos que quero ter. Já o eleven (11), pra quê diabos serve? É mais que uma dezena, menos que uma dúzia; mais que um decassílabo, menos que uma redondilha maior; mais que a camisa do Pelé, menos que os trabalhos de Hércules - e definitivamente mais do que o número de filhos que quero ter. É um número bizarro, despropositado. Um verdadeiro intruso no chamado "N" - Conjunto dos Números Naturais.
Seguindo o contraste do nome, a loja tem o trivial, o esperado, o seven. Mas tem também o intruso, o bizarro, o eleven. Tem o hot-dog, claro, emblemático da cultura fast-food do país do Supersize Me, mas tem também salsicha de camarão; tem os típicos Gatorade e Coca-Cola, mas também tem chá-verde, café gelado e suco de tamarindo; tem Ruffles, Lay's e Pringles, mas tem amendoim sabor côco, batata sabor alga-marinha, e banana-frita; tem o obrigatório ketchup, mas tem os alternativos molho de peixe, molho de ostra e mil variedades de molho de pimenta; tem os típicos sanduíches de pão de forma com atum, frango desfiado ou presunto e queijo, porém obrigados a conviver com o peixe defumado, a carne seca e o estranho donut recheado com lula e pimenta.
Naqueles 10 metros quadrados de geladeiras, prateleiras e atendentes verde-laranja, o colonizador foi colonizado. Tem pro Greg e tem pro thai. Tem pro seven, tem pro eleven.
domingo, 13 de abril de 2008
A Chuva
Belém gosta de chover bonito.
Em Manaus, a gente se encontra antes ou depois da chuva.
No verão, em Santiago, não tem antes nem depois da chuva.
N' Angola a chuva já não molha o povo sofrido.
No Camboja a chuva desata o choro contido.
Na Índia a chuva arrasta a bosta de vaca.
Na Tailândia a chuva ajuda o turista a curar a ressaca.
No Nepal a chuva provoca avalanche.
No morro em Angola acaba em desmanche.
Na Namíbia, sem chuva, o elefante acalora.
Lá no 'Kili', choveu, não choveu, vam' embora.
Em Zanzibar a chuva espanta o turista.
Em Ubatuba a chuva faz parte da vista.
No Madagascar são as árvores que choram.
No sertão pra chover é que as gentes oram.
No Laos, após a chuva, os mosquitos saem para passear.
No Laos, após a chuva, as pessoas saem para passear.
Para uns o cinza da chuva deprime.
Para outros o molhado da água reprime.
No escritório a chuva é indiferente.
No campo a chuva é a alegria da gente.
Na praia a chuva atrapalha o passeio.
No ponto de ônibus a chuva te pega de esgueio.
A chuva embaça pro mergulhador.
A chuva afasta ao ciclista o calor.
A chuva que foi me ajudou a dormir.
A chuva que foi fez cigarra trinir.
A chuva que vai inspirou o escritor.
A chuva que vem molha o computador. Fim.
Dietas de Viagem
Pensando nesta possibilidade listei, portanto, um apanhado de dietas de viagem para todos os gostos. Escolham uma e bon voyage!
Dieta da Guerra
- Duração: uma semana
- Método: faça um roteiro pelo sudeste asiático visitando as crateras do bombardeado Laos; cruze pelo sul em direção ao Museu do Genocídio e os Killing Fields na capital do Camboja, finalizando com o Museu das Atrocidades Americanas na Guerra - atualmente convertido para o mais politicamente correto Museu das Reminiscências da Guerra, em consideração aos US dollars do turismo. É garantido que ao menos por uns meses você vai deixar a churrascaria de lado.
- Bônus: Ver uma perspectiva diferente do circuito Reuters/BBC/CNN para eventos de relevância histórica.
Detox
- Duração: de 3 a 7 dias
- Método: Jejum de sólidos em praia paradisíaca na Tailândia (ou equivalente), acompanhado de sessão diária de "descarrego" - um cocozão induzido de 45 minutos -, milk-shake de phsylum, pílulas de ervas e cápsulas de bactérias de quando em quando.
- Bônus: O inesquecível sabor da primeira fatia de manga após o jejum.
Dieta do Resort
- Duração: pacotes de fim-de-semana
- Método: Gaste todo o seu dinheiro em um pacote de fim-de-semana em um resort muito do exclusivo em uma praia isolada. Quando chegar lá, ao constatar os preços do restaurante e do táxi até a cidade, 60 km distante, você obrigatoriamente vai se satisfazer com um par de saladinhas e água filtrada ao longo do fim-de-semana inteiro.
- Bônus: Se o resort for do bom mesmo, até o repolho da salada é orgânico.
Dieta do Monastério
- Duração: 10 dias
- Método: Basta ir voluntariamente a um monastério budista aprender meditação vipassana. No pacote vem uma sensacional e infalível dieta de noodles apimentado sem sal com açúcar, duas vezes ao dia - café às 6h e almoço às 10h30 - e leite de soja sabor morango de jantar às 17h.
- Bônus: Várias amigas formigas durante o processo.
Dieta da Índia
- Duração: um dia (de cada vez)
- Método: É, sem sombra de dúvida, a mais eficiente. Comece o dia com um suco de laranja em saquinho na barraquinha da rua (ali onde a vaca que come lixo acabou de lamber o espremedor). Complete o café da manhã com um levíssimo curry com pão frito no óleo da semana passada e chá de água mal-fervida da torneira com leite vencido. O resto do dia não há do que se preocupar: limpeza garantida em seu sistema digestivo.
- Bônus: Experimentar o suco de laranja mais docinho do mundo!
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Sanduíche de Memórias do Laos
Mas, curiosamente, a realidade não é tão perfeita como os pôres do sol na savana africana. O que eu lembro mesmo, honestamente, é de uma baguete besta de filé de frango com queijo e alface que comi um café da manhã qualquer, na beira do Mekong. Não era melhor nem pior que na padoca de casa, mas naquele momento era o que eu precisava. E o turismo "roots" que se foda.
O que percebo, ao recordar-me de nossa curta estadia no Laos através da baguete de frango, é como a experiência de viajar, como tantas outras coisas, tem um lado coletivo e um lado individual. O lado coletivo é aquele que fica registrado nos guias de viagem, nos cartões postais, nos livros de história, nos blogues de viagem. São fotos, descrições, aventuras, crônicas, desventuras, experiências, enfim, com um denominador comum que cativa os leitores: beleza natural, exotismo, adrenalina, perigo, conforto, surpresa, diferença cultural e assim vai. Já a experiência individual é a fusão destes elementos com aquilo que trazemos na bagagem: nossos gostos pessoais, nossa nacionalidade, nosso estado de espírito, nosso porte físico - digamos, para ser moderno e nerd, nossa "configuração".
A experiência individual, portanto, varia muito mais que a experiência coletiva, mas fica enormemente ofuscada dependendo do tipo de viagem feita. Uma viagem de grupo tipo CVC, por exemplo, é fundamentalmente coletiva, pois há espaço mínimo para a opção e para a fruição solitária, individual. Tudo o que é feito já é passado mastigado, interpretado pelo guia, que praticamente lhe diz o que você tem que sentir: aqui o pôr-do-sol é "emocionante", acolá é a igreja mais "importante" do continente; lá são os artesanatos "mais bonitos" e "originais" - tudo como se você não tivesse o bom senso para avaliar ou estudar por si mesmo. Em outras palavras, você está de férias, NÃO PENSE! E como se não bastasse, sempre tem um mano do lado para discutir e consensuar coletivamente sobre o quão "turquesa" é a cachoeira.
Uma viagem individual, independente, abre muito mais o universo de possibilidades de interpretação pessoal. Seja por descontrolada criatividade - no meu caso particular a Maca batizou de "O Fantástico Mundo do More" -, seja por simples ignorância - por vezes intencional -, o viajante viaja dentro da viagem, reconstruindo a história do império Khmer na imaginação, interpretando a mitologia indiana, revivendo o dia a dia do guerrilheiro vietnamita que defendeu o país debaixo de microtúneis com 30 metros de profundidade, sentindo a guerra civil angolana nos olhos vermelhos do povo que o encara com cara de mal-vindos.
No entanto, mais do que a invenção, são as pequenas doses de realidade que definem a qualidade da experiência do visitante: se o ônibus atrasou 4 horas para sair, se você esqueceu o relógio no último hotel, se uma lagartixa gigante caga sistematicamente no seu quarto, se um desentendimento tira o brilho do entardecer no Everest, se o tempo virou bem no dia que não podia, se não encontramos o maldito leopardo - afinal não é zoológico - , se você machucou a perna na véspera de fazer um trekking nos Anapurnas etc. Cada pequena variável de realidade impacta por vezes de maneira definitiva e irreversível a experiência de um em contraste com a de outro.
Porém as mesmas mínimas coisas podem impactar de maneira positiva: uma manada de leões que acidentalmente cruza a pista na frente do carro alugado, uma amizade nova no Tibete, uma simples varanda agradável, uma pantufa ou uma bolsinha artesanal do mercado de rua de Luang Prabang ou ainda aquele mesmo pôr-do-sol perfeito na savana africana.
E assim o visitante, de CVC ou não, pode ter a melhor lembrança da vida enquanto o vizinho ou o melhor amigo repudia o mesmo destino por uma experiência frustrante; e isso pode acontecer na China ou na Oficina de Pizzas.
sábado, 29 de março de 2008
90%
90% das coçeiras são impressão
90% do cansaço é ilusão
90% da memória atrapalha
90% das pessoas não têm charme
90% das músicas são iguais
90% dos animais são amigos
90% dos amigos são colegas
90% da saúde é disciplina
90% dos religiosos não entenderam nada
90% dos seguidores não entenderam nada
90% dos políticos não entenderam nada
90% dos alunos de MecFlu* não entenderam nada
90% dos professores amam seu trabalho
90% do cinema é roliúdi
90% de roliúdi não é cinema
90% das crianças estão agora rindo, chorando ou dormindo
90% dos adultos agora gostariam de estar dormindo, chorando ou rindo
90% dos neo-hippies são ricos
90% dos biquínis são feios
90% dos vestidos são pretos
90% dos olhos são escuros
90% da minha cabeça é orelha
90% dos chineses é demais
90% dos rolex são falsos
90% do que escrevo é inútil
*Apelido 'carinhoso' para a matéria Mecânica dos Fluidos na faculdade de engenharia, mais especificamente na Poli/USP
quinta-feira, 27 de março de 2008
Orkut Que é Bom Ninguém Quer Dar
He who stands on his tiptoes does not stand firm; (So), he who displays himself doesnot shine.
Aquele que permanece na ponta dos pés não se mantém firme; (Logo), aquele que se exibe não brilha.
(Lao Tse, extraído do Tao Te King, minha livre tradução!)
Desde que começou a viagem eu perturbo a Maca dizendo que vamos terminar em Papua Nova Guiné. Algum desejo de infância, anseio pelo remoto e desconhecido, talvez algum programa do Discovery Channel, sei lá, mas a Papua sempre esteve firme no meu imaginário. Talvez seja simplesmente porque soa super 'diferente'. Mas o 'diferente' seria necessariamente bom para nós?
Gastamos muita energia procurando o 'diferente'. Porque queremos ser 'diferentes', soar 'diferentes', parecer 'diferentes', fazer 'diferente', como se o mais 'diferente' nos aproximasse de sermos únicos. O que não é de todo mau. Afinal, somos únicos, necessariamente, não importa a maquiagem.
Mas jogamos muita energia fora procurando essa diferença em aspectos que estão no mundo afora, tal como bens materiais, gestos, destinos de viagem, música. Não adianta esconder, sinto uma certa satisfação em mostrar Barbatuques ou Pau d'Água para os gringos na Tailândia, como se eu fosse um verdadeiro Indiana Jones exibindo a última descoberta arqueológica brasileira. Entre os gringos da Tailândia, sou o único que conhecia esses artistas - quase, tem a Maca!!!
Mas esse processo é sem fim, a posse de coisas, idéias, aparência 'diferentes' procurando delinear o 'único' é temporária, transitória, impermanente. Ok, para muitas coisas, existe um primeiro, um único, um ato digno de registro pelos moldes dos livros de história ou Guiness Book: teve um milionário que foi ao espaço sem ser astronauta; teve um neozelandês que subiu o Everest primeiro; um brasileiro que inventou o avião; um inglês que "promulgou" a lei da gravidade; um alemão inventou o Marxismo; um italiano descobriu a América, achou que era Índia e outro levou o nome; um gênio egípcio inventou a cerveja; algum idiota francês ou português inventou o cê cedilha; um chinês inventou a pólvora e outro chines muito mais legal inventou o macarrão. E assim por diante: um nome associado a um feito, uma descoberta, um objeto, uma idéia. Mas será que precisamos entrar para o ânus da história para sermos verdadeiramente únicos?
Esse raciocínio tem me perturbado desde os primeiros destinos de nossa viagem até os mais recentes. Seja em um país que eu, pessoalmente, nunca havia ouvido falar, como a Namíbia ou a 5200m de altura no pé da cabeça do mundo, no Tibete, é sempre a mesma história: alguém mais já esteve, alguém mais está, alguém mais estará. Então eu não sou especial.
Claro que tivemos nossos momentos de pop-star em Madagascar e Laos, onde ser estrangeiro ainda parece impressionar em determinados setores do roteiro de turista. Mas, apesar de ser bem divertido sentir-se como o objeto de admiração - você, que está lá justamente para admirar -, no final das contas não agregou muito à esta jornada, nem me fez sentir mais 'único', foi apenas diversão fugaz. Mas ajuda nesta reflexão.
Então eu olho o Orkut e vejo a quantidade de "comunidades" que agrega as pessoas, a quantidade de amigos que cada um tem: comunidade dos corinthianos, dos "Eu Chamo Marcelo", ou a comunidade "Sou Rico Mesmo, e Daí?"; soa como se fosse uma competição pra ver quem tem mais comunidades, amigos, recadinhos, fãs - e é, em alguns sentidos, tem coraçõezinhos, estrelinhas e outros ícones para qualificar o indivíduo! E então pergunto qualé? Ser diferente, só, único, ou ser igual, compartilhar, "fazer parte", concordar com um grupo?
Olhando com calma ao redor, me assombra o quanto somos todos tão diferentes, ainda que compartilhando micro-sociedades - família, bairro, colégio, poder aquisitivo, nacionalidade, hobby, esporte - ou até aspectos físicos - cor, beleza, altura, deficiência - ou por fim as vulgares comunidades digitais do Orkut - de sexo, interesse, faculdade ou até a sensacional "Orkut que é bom ninguém quer dar".
Do outro lado, ser 'diferente' parece um atestado de não ser 'igual'. Mas se todos estiverem igualmente buscando serem 'diferentes' não serão todos igualmente diferentes?
Foi por isso que abri mão da Papua. Encontrei uma solução contemporaneamente metafísica: criar a comunidade "Marcelo, eu mesmo" no Orkut, postar perguntas e respostas para mim mesmo e não convidar ninguém para ver. Quem sabe assim descubro definitivamente minha identidade - a não ser que meu avatar Aloísio da Cidade roube a senha...
terça-feira, 25 de março de 2008
Post 51: Uma Boa Idéia
1 Coxinha do Frangó
2 Pizza de calabresa do Castelões
3 Organizar com a turma o bloco de Carnaval "Sai da Minha Aba" (pus no '3' porque o próximo será 3a. edição!)
4 Cinema na Augusta com Frevinho na sequência
5 Jogo ruim do Corinthians no Pacaembu
6 Citações de Noel Rosa do Grauss
7 Feijoada no Betinho
8 Tiradas sagazes do Beto Montenegro
9 Futebolzinho do Tiagão no Locsports com cerveja no sábado (pus de propósito no número nove, para ser ofensivo)
10 "Bom dia, xuxu!" sinfônico da Mônica
11 Almoço de quarta na tia Lela com o Guto falando pelos cotovelos
12 Assistir Lost com Nutella com o Gus e a Lu
13 Uma ligação do Marquinhos Wolff só para saber como estamos
14 Foundue e vinho chileno na casa do Diogão
15 Moqueca no Soteropolitano
16 Happy com a turma do trabalho - sem pinga da próxima vez, viu, Alicio?
17 Stanley cantando samba de breque no Bar do Cidão
18 Coalhada e sopa de ervilha da minha mãe
19 Estrogonofe da vuela
20 Bacalhau do vô Ruy
21 Caminhar sem rumo na Av. Paulista
22 Caverna do Bugre na Teodoro
23 Empada de tomate seco do Rei das Empadas (no trailler na Sena Madureira, não nas filiais)
24 Aniversário da Florinha (minha afilhada)
25 Correr na Sumaré só pra encontrar amigos no caminho
26 Jogo do Brasil no Mercearia São Pedro
27 Chope do Léo (Klauss, você sabe por que este caiu no '27', não??)
28 Café da manhã de padaria - qualquer uma!
29 Falar de mulher na mesa com dois irmãos homens; mãe e esposa se entreolham horrorizadas
30 Fazer feira na Morato e comer pastel na saída
31 Falar de futebol com o porteiro
32 Dirigir na estrada - não no feriado!
33 Churrasco com amigos e cerveja estupidamente gelada
34 Festa Junina
35 Passear e comer bobagem na Feira da Benedito Calixto
36 Visita inesperada de amigos no domingão à tarde
37 Receber amigos chilenos em casa
38 Ó do Borogodó de domingo
39 Tomar muito uísque em casamento
40 Tomar batida com sanduíche de linguiça no Cu do Padre
41 Escrever "Reflexões de Toalete" no Morfina
42 Encher a mesa de petiscos e 'cajú amigo' no Elídio
43 Assistir aos sensacionais shows produzidos pelo Scubi - em particular o Herz
44 Brincar com cada novo filho de cada amigo que engravida
45 Sushi de sexta com o Chris e a Picuca
46 Passeio despretensioso no Ibirapuera para ver a flora - e a fauna
47 Sanduíche de mortadela 500g do Mercadão
48 Ler os escritos no vidro da estação de Metrô Sumaré enquanto espera
49 Ir de repente ao Filial
50 Visitar qualquer um que more no Copan (Cândido!!! E aí?)
51 Caipirinha de mexerica com lima do Lapinha - que não é feita com 51...
Alguem disconcorda?
domingo, 23 de março de 2008
Brasileiro Santos
No princípio é um rompimento forte, que independente de preparação - material e psicológica -, a gente sempre se surpreende quando chega a hora. Se estivesse infeliz no país de origem, vá lá, qualquer mudança parece que só pode melhorar, quase como uma fuga. Mas se a gente sai de uma situação de conforto, "sucesso", algo que se assemelhe à felicidade - ao menos nos moldes daquela novela das oito que começa às dez - a coisa é um pouco diferente. A gente deixa pra trás um monte de coisa boa e ruim, consciente, mas motivado pela fé de que coisa melhor pode vir (Pode também não vir, claro, mas quem não arrisca...). Então, naturalmente, logo após deixarmos a conjuntura para aventurar-nos ao mundo, lembramos fortemente das coisas boas que deixamos para trás: família, amigos, casa, a padoca da esquina, o Soteropolitano, o boteco preferido, por vezes até o trabalho. Assim como quem relembra os momentos bons com o avô: um natal, uma visita no Mato Grosso, um almoço de domingo, uma carta escrita à máquina. O sorriso paterno vem logo à cabeça e as virtudes do velhinho transbordam na emoção e na confusão dos sentimentos. A perda nos estimula tanto o apego que cultivamos à pessoa que esquecemos seus defeitos sem auditar.
Com o tempo, no entanto, a poeira baixa e um ou outro problema na vida te recorda que ele não era perfeito - nem o avô, nem o país. Seja quando abre o globo.com para ver notícias e, em oito meses, a manchete principal nunca foi diferente de Big Brother; seja quando percebe um traço atual de algum defeito do patriarca que você, herdeiro, está perpetuando. Nos dois casos, é instaurada uma crise. Em outras palavras, é quando cai a ficha.
Nesse momento, na viagem, começa a sessão-saco-cheio de nacionalidade, em que eu queria apenas ser um "cidadão do mundo". E bem nessa hora algum insensível vem conversar de futebol só porque sou brasileiro, ou algum (outro) italiano vem dizer em um português sofrível que já foi 10 vezes ao Brasil e conhece mais praias do nordeste que eu - e provavelmente já comeu mais brasileiras também!! Nessa hora, estranhamente, estando de mal com o país, eu só me esforçava para não fazer nada típico brasileiro para não ser reconhecido, senão, já viu, o coro - Ronaldôôô! Ronaldinhôôô! - começa novamente.

sexta-feira, 21 de março de 2008
Quarteirão
Posso olhar para o alto do Everest e me sentir-me sublime por um momento.
Posso subir o Kilimanjaro e sentir-me no céu por um momento.
Posso estirar-me na praia em Zanzibar e sentir-me Adão por um momento.
Posso, de cima de um elefante, presenciar um tigre caçando veados e sentir-me selvagem por um momento.
Posso ver o negro dançando e sentir-me alemão por um momento.
Posso receber um sorriso malagasi e sentir-me criança por um momento.
Posso ver um nascer do sol flamejante no Vietnã e sentir-me pescador por um momento.
Posso ouvir o canto estridente das cigarras enquanto medito e sentir-me ausente por um momento.
Posso ver a africana pintada seminua cozinhando funge e me sentir fútil por um momento.
Posso assustar-me com o rinoceronte marchando em direção ao meu carro e sentir-me vulnerável por um momento.
Posso admirar o tibetano prostrando e sentir-me vazio por um momento.
Posso deslumbrar-me com a cidade azul de Jodhpur no por-do-sol e sentir-me em paz por um momento.
Posso receber uma massagem thai por uma hora e sentir-me chiclete por um momento.
Posso assustar-me com os crânios de Choueng Ek (Killing Fields) no Camboja e sentir-me impotente por um momento.
Todos estes sentimentos, no entanto, quem me proporcionou não foi o lugar que visitamos, não foram as pessoas que conhecemos, não foi a comida que provamos, não foi a paisagem que vimos, não foi o exercício que fizemos. Poderia ter sido na Pompéia, em que vi uma menina atropelada; na Heitor Penteado em que ajudei uma velhinha perdida; poderia ser no meu prédio em que briguei com o vizinho de sopetão; poderia ser durante a reunião de trabalho em Curitiba, enquanto almoçávamos pizza de excel com peperoni; poderia ser na esquina de casa em que a Maca foi assaltada; poderia ser no Ó do Borogodó celebrando pré-carnaval; poderia ser na padaria em que fiz questão dos 3 centavos; poderia ser numa festa boy em que me ameaçaram com uma faca no pescoço; poderia ser na praça ao lado de casa, onde minha afilhada Flora deu os primeiros passos.
Por isso devo demarcar meu território, apreciar cada esquina do meu bairro, admirar cada detalhe do meu corpo e considerar cada canto obscuro da minha mente. Ali no pé, entre o dedão e o anular, perto daquela ex-unha encravada, pode estar a resposta do meu próximo problema.
Agora
Agora estou ouvindo a Maca conversar com a Andrea (Cucha) no quarto ao lado, lembrando que apesar de seu português soar natural como um suspiro, o idioma da Maca é originalmente espanhol; o que não me impede de preferir ela falando o português brasileiro paulista com aquele restinho de sotaque chileno que dá um gosto especial.
Agora estou com certo calor, com um pouquinho de dor nas costas, com uma bermuda meio feia, com um quê de sono ou preguiça, com um par de pernilongos em minha órbita, com o pé bem sujo do dia andado de havaiana, com um princípio de vontade de ir ao banheiro, com uma grande vontade de regar tudo isso com uma qualquer coisa gelada lá no térreo.
Agora estou na Tailândia, em Chiang Mai, norte, olhando, como disse, o por do sol, a oeste, cercado por montanhas, tribos migradas de Myanmar, esportes radicais, trekking com elefantes, ringue de Muai Thai (boxe tailandês), restaurantes thai charmosos como uma Paraty, boates decadentes com meninas e mulheres e turistas com mais de 50, fast-food e starbucks, motos e mais motos, 200 mosteiros, shopping com cinema nacional que passa um minuto sobre o rei antes de começar o filme.
Agora estou mais magro, barba mais ou menos feita, corpo mais firme, mente mais clara, mais concentrado, mais tranquilo, e cada vez mais saudoso, mais satisfeito, mais cansado de carregar mochila.
Mas nada disso ganha. Por enquanto, por agora. Agora continuo aqui, impassível, escrevendo. Só porque tá bom. Só porque tá suficientemente bom.
segunda-feira, 17 de março de 2008
xxxxxxxx de Mosteiro
O fato é que desapareci por uns tempos. Uns nem notaram - muito bem!! Outros ficaram contentes com o silêncio - justo. Outros não se conformaram e escreveram cartas apaixonadas à produção deste blogue rogando por novos artigos, coisa que só tenho a lamentar e dizer: não tem nada melhor que fazer não?
Bom, independente de, mas bastante motivado pelos milhares de apelos, resolvi publicar algo. O impasse era inevitável, no entanto, já que este autor passou os últimos 10-1 dias (resultado = 9, mas não tô a fim de explicar por quê escrevi assim) em um monastério budista no norte da Tailândia, mais precisamente no Wat Ram Poeng, no simpático município de Chiang Mai. Indo direto ao assunto, o que é que vocês querem saber desta aventura, cuja rotina era: acordar às 4 da manhã com 40 gongadas na orelha; meditar 2 horas; tomar café - significa noodles ou arroz com pimenta, bem gostoso por sinal; banho frio, varre o pátio e medita por mais umas 3 horas; almoço - sim, meu caro, se você fez um pouco de contas, concluiu que o almoço era 10h30 da matina, mas o que você não concluiu ainda, sabidão, é que é a última refeição do dia; e o resto do dia, tirando uma pausa pro leitinho de soja ou pra fazer xixi, é meditação, até as 22hs. Detalhe: não podia olhar nos olhos de ninguém nem falar, nem ler, nem dormir de dia, nem comer nem beber nada após o meio-dia, nem vestir nada que não fosse branco, nem matar animais - mesmo barata - nem sair do templo, nem tocar ninguém, nem mostrar a sola do pé pra qualquer dos 200 Budas, Budinhas e Budas gordos risonhos do monastério. Quer dizer: podia, mas não devia; então não fiz nada disso...
Se eu fosse um jornalista tava feito. Era só copiar e colar 10-1=9 vezes o texto acima e a matéria estava feita.
Como não sou jornalista nem muito menos escritor vou fazer o que me dá na telha, que é falar das formigas que me fizeram companhia para entreter os corajosos leitores que ainda não sairam correndo.
Assim surgiram os tais aforismas, hai kais ou o raio que o parta. Bom, só essa lenga-lenga "inicial" já dava um post inteiro, então vou parar de devorar vorazmente seu precioso tempo e vou começar a terminar este artigo. Lá vão os aforismas/hai kai/whatever!!!
Considerações sobre as FORMIGAS
1. Tinha 2000 formigas em meu banheiro; foi a primeira vez que solucionei um problema fazendo uma cagada.
2. O meu banheiro deve ser pra uma formiga o que é a Tailândia para mim - praia, montanha, budistas, formigas...
3. Formigas também têm personalidade; conheci uma que gostava de andar nas 4 patas de trás.
4. Se tudo o que uma formiga faz é seguir a outra formiga; qual formiga vai primeiro?
5. (para os fotógrafos) Até uma formiga pode ser perfeita com a luz certa.
Considerações sobre a CONCENTRAÇÃO
6. Você sabe que está concentrado quando escova os dentes, dente por dente, sem olhar no espelho.
7. Você sabe que está concentrado quando percebe que piscou o olho.
8. Você sabe que está concentrado quando percebe que um mosquito picou seu olho - e você não se mexeu.
9. Você sabe que está concentrado quando percebe que uma formiga entrou e saiu do seu ouvido - e você não se mexeu.
10. Você sabe que está concentrado quando dois mosquitos kamikaze entraram pela narina direita - e você não se mexeu.
11. Você sabe que está concentrado quando o som chega na orelha, mas não ao ouvido.
12. Quem faz o que SABEM ser certo não sabe ao certo o que faz; quem faz o que SABE ser certo acerta.
13. O cúmulo da concentração é esquecer de respirar.
14. Meditar não é legal; é neutro.
15. Nossa cabeça funciona como se assistíssemos ao mundo em uma TV com 100 canais, 100 quadradinhos ao mesmo tempo, em que nos esforçamos para assistir um dos quadradinhos em algum canto da tela, desconsiderando os demais; o segredo é ver um canal só na tela inteira - ou desligar a TV de uma vez.
16. A mente não necessariamente comanda o corpo; mas o corpo necessariamente responde à mente.
17. Deixe o pernilongo picar; imagine se toda vez que você fosse morder um bife viesse uma vaca de 40 metros e esmagasse seu cérebro com a pata dianteira.
Considerações sobre o TEMPO e o TEMPLO:
18. Quem acorda às 4 da manhã com 40 badaladas em um gongo gigante não pode reclamar que não deu tempo.
19. A ansiedade é a mãe e a filha da ansiedade.
20. Novo estatuto budista: toda estátua de Buda deve ter uma mosca no nariz.
21. 10 dias sem tomar uma cerveja. Sim, só isso.
E, finalizando, para todos os pais que sempre tiveram dificuldades explicando para os filhos que diabos é um arroto, um soluço ou um espirro, segue uma explicação assaz operativa que me ocorreu em um momento de muita luz:
22a. O soluço é o espirro do esôfago;
22b. O espirro é o arroto do pulmão;
22c. O arroto é o soluço da barriga.
E tenho dito.
Agora abro espaço no Blogue para a votação do aforisma mais ridículo; até me dei ao trabalho de numerar para ficar mais fácil e depois poder fazer gráficos em excel com os resultados.
Mexam-se!!!
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Desaprendendo
Pensando nisso, um tempo atrás, decidi que queria uma empreitada intelectual diferente.
Existe um site, uma rede social, chamada 43 Things que serve para as pessoas socializarem seus pequenos projetos futuros de vida e compartilharem as experiências passadas, ou seja, as benesses e dificuldades de quem se aventurou. Numa sociedade cheia de gente insegura lutando contra o anonimato, não é de se surpreender, portanto, que uma das realizações mais populares sejam "escrever um livro", uma celebrada e clássica forma de assegurar que sua vida valeu alguma coisa ou que você é um intelectual; em suma, que você é "especial". Lá nos primeiros lugares figura também, evidentemente, perder peso, provavelmente consequência da mesma insegurança acrescida do latente narcisismo e da pressão midiática pelos modelos de beleza do ocidente. Considerando que a maior comunidade ativa é estadunidense, não me surpreende, por fim, que uma grande parte deseje aprender um outro idioma, quem sabe como um pedido mudo de desculpas pela ignorância coletiva da classe média do país sobre qualquer coisa que tenha a ver com o resto do mundo.
O fato é que um tempo atrás entrei neste site para conhecê-lo e resolvi tentar me propor um objetivo um pouco diferente: Esquecer um idioma; esquecer o inglês. Ainda não consegui.
Esse propósito me voltou à cabeça fortemente na última semana, quando fomos conhecer os arredores de Hanoi, capital do Vietnã, mais especificamente, Halong Bay. Ok, confesso que para a empreitada comprei um pacote: 3 dias e duas noites, com caiaque e tudo. Halong Bay é uma sensacional baía em que ilhas rochosas cobertas de verde brotam magicamente no mar - uma concorrente ao título de maravilha natural do mundo. Então fomos nós de pacotão conhecer a maravilha.
Assim como nós, outros viajantes - empareados, sozinhos ou de galera - optaram pelo mesmo serviço, totalizando um grupo de 15. Conhecemos um grupo de molecada ausie, um simpático Maltês e um boxeador maluco estadunidense, entre outros, mas quem mais me chamou a atenção foi um tiozinho solitário e risonho que sempre aparentava estar perdido ou distraído. Discreto e calado, só interagia através de sorrisos e movimentos com a cabeça; e onde o grupo ia, seguia. Mesmo assim, parecia que seu silêncio tinha algo de sagrado.
Descobri, pelo passaporte, que era coreano. Percebi, pela atitude, que não falava inglês.
No meio dos mares de turistas que invadiam a baía em um interminável fluxo de réplicas do que seria a caravela vietnamita, liderados no sensacional e macarrônico inglês monossilábico dos guias vietnamitas, percebi a sorte do tiozinho: não tinha que ouvir os adolescentes australianos exagerando as piadas; nem o boxeador fortão exagerando as mulheres; tampouco compreendia os turistas da alta burguesia indiana forçando o inglês com seu inconfundível sotaque - em vez de hindi ou uma de suas 13 línguas oficiais, só porque falar inglês é chic. Sobretudo não era obrigado a escutar o maltês e eu falando mal dos australianos, indianos ou do estadunidense.
Alheio a tudo o que era palavra, o tiozinho, com a maior cara de satisfação, curtia a paisagem, bela, imponente, sem distúrbios, sem assunto que não a natureza em torno. Todo aquele inglês vazio que dominava o ambiente, para ele, significava tanto quanto o motor do barco e o tiozinho seguia olhando a paisagem, risonho.
Ah, como eu quis, ainda que por um dia, desaprender o inglês! Claro que eu seria obrigado a me comunicar em mil outros idiomas quando no estrangeiro; seria obrigado a gesticular, a fazer mímica para me explicar em muitos destes países; seria obrigado, talvez, a mudar de profissão; seria obrigado a esperar o próximo sensacional livro do Dan Brown ser traduzido - ou me contentar com Paulo Coelho para meus momentos de fraqueza intelectual; seria obrigado até a contratar o amigo Klauss para traduzir um texto.
Mas, sem dúvida, seria uma experiência interessante, ainda que por um dia, desconhecer por completo o universo do onipresente inglês, idioma universal do turista e, como o tiozinho, me resignar a contemplar em silêncio mais uma das tais wonders of nature.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Cultura ou Usura?
Isso seria irrelevante se os que ficaram de fora não fossem, todos, grupos de vietnamitas com crianças voltando às suas cidades natais para celebrar o Têt - ano novo do calendário lunar - com suas famílias. Na verdade este detalhe também seria irrelevante se a companhia de ônibus houvesse dado solução decente ao impasse em vez de tentar arrancar com o ônibus. O resultado foi osso-duro: os caras deitaram na frente do ônibus para evitar a partida, tipo desobediência civil. Fiquei imaginando - com dó dos combatentes teenagers estadunidenses arremessados aqui nos idos de 60 e 70 - do que esse povo é capaz quando o assunto é soberania nacional.
Detalhes à parte, o impasse seguiu por cerca de três horas, independente de nossas infames tentativas de mediação, mais ou menos incisivas, mais ou menos inflamadas. No frigir dos ovos, ainda mantendo o humor, resolvi sentar no assento do ônibus fingindo que iria tomar o lugar do motorista e levar o ônibus adiante, uma piadinha que me parecia cabível. Qual não foi minha surpresa quando o motorista original me puxou do assento e me empurrou contra a parede do ônibus com tamanha brutalidade que, impulsivamente, o empurrei de volta e o clima esquentou, ambos com punhos cerrados...
Viajar é, entre tantas outras definições - provavelmente melhores que a seguinte - buscar intersecção entre culturas, acrescentar novos costumes à própria cultura ou ainda apenas conhecer e procurar respeitar a diferença. É impossível, no entanto, quando em ambientes desconhecidos, evitar completamente os conflitos. Eles acontecem, por vezes não se sabe nem donde vieram nem se pode prever os desdobramentos. O tal conflito pode ser consequência de choque entre culturas - um simples cafuné pode ser gentil no Brasil e ofensivo na Tailândia; ou pode ser simples ignorância dos hábitos locais - deixar os calçados ao entrar em um templo é algo tão óbvio no oriente como usar papel higiênico no ocidente.
Em suma, muitos possíveis - e, em alguns casos, prováveis - conflitos são consequência de "diferenças culturais" entre visitante e visitado.
No entanto, de tantas definições que viajar pode ter, uma coisa é certa: viajar não é um parênteses. A vida continua enquanto a gente viaja, e conflitos normais do dia a dia podem surgir em lugares que não em nossa casa, nosso trabalho, nossa cidade. Isto é verdade particularmente no caso de uma longa jornada em que viajar torna-se rotina após alguns meses. Dinâmica; não obstante, rotina. Aquela paciência extra do turista de férias, pronto a relevar o atraso do avião, o pedido que veio errado no restaurante ou a falta de água quente no banheiro, tudo em prol de "não esquentar a cabeça para não estragar os poucos dias de férias", vão pro beleléu no segundo mês de uma viagem mais extensa.
Muitas vezes a primeira reação pode ser excessivamente ativa - levar o conflito a sério sem medir a circunstância com cautela - ou excessivamente passiva - jogar a culpa de tudo nas chamadas "diferenças culturais", bode expiatório favorito do viajante.
O segredo para nós tem sido buscar o discernimento, diferenciar o diferente do folgado, o diferente do grosso, o diferente do sacana, o diferente do malandro, o diferente do bandido. Inclusive porque muitos se apóiam neste discurso para enganar o turista: "Ah, aqui é assim que funciona! Pague mais 10 dólares" - aproveitando que o turista é, afinal de contas, apenas um turista, com seu conhecimento superficial de (Not-So) Lonely Planet sobre o país.
O visitante, ao deparar-se com um conflito como tais, deve sempre manter a calma e diagnosticar cautelosamente, procurando identificar a tênue linha entre o que é Cultura e o que é Usura.
E, muitas vezes, humildemente, por a viola no saco e pedir sinceras desculpas, preferentemente no idioma local, em troca, quiçá, de mais um amigável sorriso vietnamita de um cozinheiro, monge ou um motorista de ônibus.
A Foto do Feto
Em um prato de porcelana muito do humilde, a vietnamita organiza pacientemente folhas de hortelã, enquanto o irmão prepara um molho de soja com pimenta. Em seguida, ela dispõe os dois pauzinhos e um guardanapo na mesa, enquanto o irmão picota, com uma tesoura por instrumento, um feto de pato caramelizado no meu prato.
Eu havia saído só, bancando de agente de turismo, para organizar os próximos dias, enquanto a Maca, de molho curava uma gripe - lembrança de inverno das montanhas na fronteira com a China. Meu passeio não tinha, portanto, grandes ambições culturais, até que, após comprar ingresso para o famoso teatro de marionetes na água de Hanoi, os avistei: pequeninos, alinhados lado a lado em uma barraquinha ambulante, os fetos de pato, famosa iguaria regional, chamavam a atenção pela cor forte e pelo aspecto, não precisa nem dizer, pouco convidativo.
Convidado ou não à ocasião, perguntei o preço como quem faz isso todo dia, esforçando para conter algo que não sei se chegava a ser ansiedade ou apenas ânsia...
Estranho foi que, após tanto tempo viajando grudado à Maca, estar sozinho experimentando uma bizarrice destas pareceu experimento incompleto. Torci para passar um conhecido. Vi umas israelitas que havíamos trocado duas palavras num restaurante e quase chamei para testemunhar, tirar foto e mandar por e-mail e tal. Foi quando me dei conta que a minha inquietação era porque não tinha como registrar a aventura com uma câmera, havia deixado no hotel. Sorte dos mais sensíveis; e da Maca, que talvez nunca aceitasse meus lábios de volta.
Mas o que ficou rondando minha cabeça, enquanto testava minha destreza nos palitinhos mergulhando meu lanche no molho de soja com pimenta, foi a infantil necessidade que senti de registrar o feito, digo, o feto, com uma foto.
E ponderei: que doença é essa que nos atinge? Por que a gente tem que tirar uma foto, mostrar pra todo mundo? Afinal, experimentamos, viajamos, criamos, pensamos, trabalhamos para os outros ou para nós mesmos?
Quando cursamos uma faculdade ou um curso, recebemos um diploma atestando, para fins legais, a aprovação, demonstrando à sociedade que você, dentro das regras vigentes, é capaz de exercer aquela profissão. É uma evidência legal - pendura-se o diploma de pele de carneiro na parede para sustentar o argumento e o ego do profissional. Da mesma maneira, quando "conquistamos" o Kilimanjaro, recebemos um simpático diplominha com o feito. É um atestado, no entanto, que não serve para nada senão para mostrar pros netos. Afinal, o que um diploma acrescenta em uma jornada sumamente pessoal?
No caso do feto, a evidência, o diploma, era a foto que não tirei. A dúvida foi: para quê ou para quem eu estava me aventurando? Lembrei de quando critico o turista chinês que consome os lugares por onde passa como se cada foto fosse uma missão cumprida e a viagem fosse uma contínua To do List (lista de "Coisas a fazer"). É como se não havendo foto não houvesse visita, não houvesse evidência, atestado, diploma para mostrar à sociedade.
Concluo o raciocínio me desligando da câmera e me concentrando no prato e no pato. Desfruto inteiramente seu exótico sabor sem dar mais satisfação e parto contente de volta à ordem do dia: comprar passagem para o Laos.
Agora, no entanto, quando penso novamente em todos estas reflexões sobre a foto do feto, orgulhoso de ter superado o feitiço da fotografia, percebo, um tanto atordoado, que acabo de registrar o feto com um texto.Ao menos a feição do prato eu deixo para a imaginação de vocês.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Atravessando a Rua, Cruzando o Mundo
A sociedade ocidental vem corrompendo, há séculos, a idéia de comunidade. É um processo de viagem egótica que começa pelo enfraquecimento do Estado como provedor dos subsídios fundamentais ao cidadão e culmina na desestruturação familiar, seja no excesso de divórcios, seja no hábito de mandar os filhos pro mundo com um sonoro "se vira" após a maioridade. Dou exemplos: os estadunidenses estão acostumados a cursar faculdade em qualquer estado salvo o estado natal, com um propósito de uma espécie de liberação exacerbada ou puberdade tardia - em uma sociedade hipócrita em que, com menos de 21, é muitas vezes mais fácil acessar maconha, coca ou crack que cerveja; os europeus vão trabalhar de garçom, gari, secretária, empacotador de supermercado, qualquer coisa para financiar sua faculdade, vivendo sozinho a partir dos dezoito; na América Latina a família persiste a duras custas, pai e mãe custam a desprender do rebento, mas quando o filho emancipa, é sempre "um orgulho".
Qualquer que seja a forma que toma, este processo de emancipação do indivíduo nas sociedades capitalistas do ocidente leva o sujeito a reforçar o egocentrismo como estratégia de sobrevivência, ratificando o futuro que se espera dele. É uma sociedade em que ninguém pode depender de alguém. Ou, em termos mais popularescos, é "cada um por si".
Neste contexto, o indivíduo se sente compelido a controlar o ambiente em volta, sob pena de, se não o fizer, ser controlado por outrem. Me apoiando novamente na cultura popular: se você não sabe quem é o trouxa na roda, o trouxa é você. É uma crise generalizada do altruísmo e da confiança no próximo, provavelmente consequência do anonimato bastante próprio da metrópole e do hedonismo que Baudelaire celebrava na figura do hedonista dandi na Paris do século XIX.
E o oriente?
A religiosidade vietnamita é uma fusão de taoísmo com filosofia budista e uma boa pitada dos ensinamentos confuncionistas. Confúncio dizia que para governar um reino, há de se ordenar os estados; para ordenar os estados, há de se regular a família; para regular a família, há de se cultivar a pessoa; para cultivar a pessoa, há de se rectificar o coração; para rectificar o coração, há de se ter pensamentos sinceros; para ter pensamentos sinceros, há de se estender o conhecimento ao máximo; para estender o conhecimento, há de se investigar as coisas. Logo, investigando as coisas, estende-se o conhecimento, que leva a pensamentos sinceros, e assim por diante, para por fim ilustrar o reino com virtude.
O caminho proposto por Confúncio parece, à primeira vista, o caminho do individualismo ("cultivar a pessoa"), mas o fim proposto, coletivo, é o de se regular a sociedade justamente. O propósito do trabalho de Confúncio é promover a ética no Estado, em qualquer Estado, por isso, em determinado momento, o sábio dedicou sua vida a viajar oferecendo seus conselhos aos governantes mundo afora. A virtude é, portanto, segundo esta filosofia, consequência da busca pelo aperfeiçoamento pessoal em serviço dos outros, os quais, por sua vez, retribuem igualmente com virtude ao líder. Esta contrapartida é que nos faz falta hoje em dia.
E o que isso tem a ver com atravessar a rua em Saigon?
Quando o garoto ocidental sai de casa, ainda cheio de espinhas, para "ganhar a vida" (como se fosse questão que se pode perder), ele sai em uma busca egocêntrica, regada de mais folclore popular como o mais estadunidense dos ditos: You can make a difference! (traduzindo mais ou menos: "Você pode fazer a diferença"). Começa então uma luta contra a depressão do anonimato em que 99,9% da população inevitavelmente irá cair, caso nao caia na real e perceba a bobagem que tudo isso representa ou seja sorteado para sair na próxima fábrica de celebridades instantâneas de algum Reality Show.
Enquanto o ocidental quer "ganhar" uma briga contra o anonimato, um querendo superar o outro, Confúncio ensina que você deve se aprimorar para melhor servir ao mundo. Enquanto o ocidental só confia em si mesmo - justificado através da desconfiança no outro -, Confúncio propõe que a confiança em ti é consequência da justiça de seus atos, da sinceridade de seus pensamentos. O resultado, aplicado na coletividade, é dedutível: é a projeção de si no próximo. Se você não pensa no próximo, não esperará que ele considere suas necessidades. Por outro lado, se todos pensam com sinceridade, se todos mantêm o coração reto, existe confiança no próximo. E só assim existe entrega.
Pois assim é atravessar a rua em Ho Chi Minh City. Basta atravessar, devagar, sem hesitar, sem se preocupar com o que vão dizer, pensar ou fazer, com apenas uma certeza: todos tem a intenção de fazer o possível para desviar de você, assim como eles gostariam que você o fizesse; ninguém se preocupa de julgar se você está atravessando no lugar correto ou não; não importa se você é branco ou preto; não faz diferença a roupa que você leva posta; simplesmente todo mundo está coletivamente sinceramente engajado no bem estar do próximo. Em suma: todo mundo se preserva.
É assim que, estranhamente, ao atravessar as caóticas vias de Ho Chi Minh City, me vem uma sensação de paz; como um animal selvagem que subitamente não tem mais predador.