quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A Cara do Estado é a Estrada

Às vezes a gente acostuma tanto com nosso jeito de ser, fazer coisas, com o que vimos na TV e nos países vizinhos que a gente esquece que tem soluções diametralmente opostas para problemas equivalentes. Viajar ajuda a lembrar. Comecei a pensar nisso quando avaliei como umas horas na estrada podem te falar muito sobre um país.

Me lembro ainda criança, quando estive nos EUA, passeando por uma estrada impecavelmente lisa e reta que, incrivelmente, tinha limite de velocidade... mínima! Via de regra, a disciplina dos estadunidenses na estrada (e de muitos países europeus, provavelmente) é tamanha que o sujeito liga o estabilizador de velocidade nas 60 milhas e larga o pé do acelerador. E carro (ou motorista) velho que não chega a 40 mph nem entra. Guiar na estrada (em uma highway decente) lá é praticamente sinônimo de esterçar o volante de quando em quando.

Já no Brasil, convivem os esportivos importados último modelo - um passarinho me disse que o Brasil é o terceiro mercado mundial de Ferrari - com o 'utilitário' 1.0 flex, o corcel 73 e a frota de caminhões mal conservados que fazem o trabalho sujo do transporte de mercadorias. E, em algum escritório em algum canto do país, engenheiros do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) - uns bem intencionados, outros puxando a sardinha para algum escuso interesse privado - tentam achar uma fórmula maluca pra que a coisa ande. Meio que lembra o planalto, não?

Em Angola, a tentativa de estrada que passa no meio dos buracos que se estendem de norte a sul no país dispõe de elementos que tornam o deslocamento mais emocionante que River Raid de madrugada escondido da mãe: além dos buracos supracitados, minas remanescentes da recente guerra civil escondem-se embaixo da terra em determinados trechos das margens da estrada; guia-se de uma maneira, digamos, intrépida (lembre: isso não é um elogio!); e para finalizar bichos cruzam a pista de vez em quando pra assustar ainda mais o motorista escaldado - e, de toda a escassa fauna remanescente no país, o bicho mais assustador nesta circunstância é o policial rodoviário, mais corrupto que padre da Record. Aí, pra completar o cenário, com os petrodólares que jorram do norte, o governo angolano contrata os chineses pra reconstruir estas estradas. Ora, uma coisa é comprar o abridor de 1,99 made in china porque se perder ou quebrar, compra logo outro, talvez na próxima cria coragem ou vergonha na cara e compra logo um de aço inox. Outra coisa é uma estrada feita por ambiciosos engenheiros chineses supervisionada por políticos angolanos corruptos. Coisa boa daí não sai.

Viajar pelas estradas da Índia, no entanto, novamente supera os parâmetros convencionas. O estado variado das estradas geralmente pende pro muito ruim, em que mal cabe um veículo na pista que, no entanto, é duplo-sentido; o asfalto é notoriamente esburacado; vacas, cabras, porcos cruzam a pista calmamente, não importa se é cidade ou campo. Tá, até aí, não é muita novidade pra brasileiro pé-na-estrada que já pegou transamazônica de jamanta, Belém-Brasília de busão ou Rio-Recife de bicicleta. Mas a novidade se anuncia com um curioso anúncio presente na traseira de 100% dos coloridos caminhões e tratores do caminho: "Please Blow Horn"... Buzine, por favor?

O hábito de guiar, para este povo com que temos contato - sei que no Nepal e Tibete funciona parecido - se assemelha à personalidade deles no dia a dia: dispersa, resolvendo aquele instante como se fosse o único, sem se preocupar muito com o que vai à frente nem com o que vem atrás. Retrovisor, quê isso? Buzine, pliz.

Pra lidar com as ruas e estradas da Índia tem que fazer que nem com cachorro brabo: não importa o quanto o bicho corre e ladra em sua direção, continue fazendo o que está fazendo, passeando em bicicleta, caminhando pela rua, conversando com o sorveteiro. Não dê atenção ao cão, por mais feroz que pareça. Se você demonstrar medo ou correr, o mais provável é voltar pra casa, no mínimo, com uma mordida na canela - claro que, se estiver roubando jaboticaba do quintal do vizinho, aí tem mais é que correr mesmo.

Mas se você estiver guiando ou até mesmo cruzando a rua na Índia, o negócio é não fazer movimentos bruscos, tudo deve ser suave. Se está caminhando, ouve uma horda de frenéticas buzinas, continue caminhando, cruze a rua devagar, mesmo que dezenas de scooters, motos, auto-rickshaws, bicicletas, vacas, carros e até caminhões venham caoticamente em sua direção. Se ouvir uma buzina, não se desespere, não saia correndo, apenas saiba que atrás vem gente. Se estiver guiando, confie que o caminhão que se aproxima em feroz contramão não tem a intenção de se chocar nem de te assustar; ele vai voltar para seu lugar, provavelmente antes do temido incidente. Ou então ele, bem como o motorista de seu veículo, sabem que o acostamento está lá, pra isso mesmo.

Assim, quando seu ônibus está passando o caminhão que está passando o auto-rickshaw, que está passando o rickshaw, que está passando a bicicleta, que está passando o cidadão, que está passando a vaca, tudo isso no meio da curva pra esquerda ao lado do precipício à direita, e aparece uma jamanta no sentido oposto, lembre que, pra sua sorte, ambos os motoristas são indianos.

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá Marcelo e Maca,
adoro dar uma olhada no blog de vocês, está demais!
Fico bem animada, afinal, esse ano também cairei na estrada.
Por isso vim pedir o email do agente de viagem que ajudou vcs com o orçamento de passagens. Poderiam mandar para o meu email?
abraços,
Flávia (brasileira de Zanzibar)

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Marcelo disse...

Flavia, apaguei seu comentario para evitar spam!! ja ta na agenda! Bjs